sexta-feira, 14 de agosto de 2009

INFECÇÃO PRIMÁRIA

Ir ao médico nunca foi um dos meus passeios favoritos. Nem acompanhando alguém doente e muito menos quando o paciente sou eu. No entanto, por obra e graça de alguma força estranha que me derrubou essa semana, parei duas vezes na urgência do hospital da Unimed. Meus braços, como disse o dublê de palhaço que me atendeu no terceiro dia, estão mais furados que tábua de pirulito. Foram dois hemogramas, um tubo de soro, uma injeção de dipirona e de outro medicamento que não guardei o nome. Pelo menos até agora, tudo em vão.

Bom, mas como isso aqui não é diário nem estou a fim de me confessar, vamos a história. Depois dos dois resultados dos hemogramas, a segunda médica que me atendeu olhou para minha cara e disse que não tinha bagagem para saber o que se passava comigo. Falou em suspeita de dengue, infecção, virose, descartou a tal gripe suína, enfim, acabou me deixando mais confuso do que quando eu entrei no consultório.

Fui, então, procurar a ajuda do infectologista. Imaginei, cá comigo, que passaria a manhã inteira fazendo exames, raio-X e o escambau. Para minha surpresa, embora não tenha levado o relógio, a conversa com o doutor não levou mais que dez minutos. Nunca me arrependi tanto de dizer a alguém minha profissão.

Foi o bastante para o sujeito de jaleco descer a mamona em Lula, no PT e me cobrar uma atitude pela queda do diploma de jornalista. Eu ia escutando o sermão com aquela moleza e a dor de cabeça que me levaram até ali. O médico dizia e eu balançava a cabeça tentando segurar o mundo que rodava envolta. Mostrou-me até o livro que lia no momento, sobre ética médica, e tome falar mal de Lula. Lá pelas tantas, sem que eu tenha esboçado reação alguma, disse que era filiado ao PMDB. E o PMDB, no conceito do sujeito de branco, “é um partido que tem toda qualidade de gente: tem o Sarney, mas também tem o Pedro Simon e o Jarbas Vasconcelos”, disse.

Entre um discurso e outro, o doutor descartou a dengue e, mesmo dizendo que na medicina nada é 100% garantido, falou que meu caso era de infecção primária. Perguntei por exames, ele disse que não precisava e iria me passar dois remédios. Caso não melhorasse, que eu retornasse ao consultório uma semana depois (provavelmente, e dependendo da gravidade da infecção, já num caixão de defunto).

Por fim, meteu o pau no Lula e no PT mais uma vez e me perguntou porque eu e meus colegas jornalistas não fazíamos uma caravana em direção a Brasília para invadir o Congresso Nacional, “mas sem quebrar nada porque senão fica parecido com as ações criminosas do MST”. Ri um sorriso sem graça e amarelo e inventei de falar que o Gilmar Mendes estava em Natal. Ao ouvir o nome do ministro do STF, o mesmo que cassou o diploma de jornalista, o letrado doutor me perguntou quem era o cabra. Respirei fundo e expliquei pacientemente que era o homem que havia motivado todos os sermões que ele me dera desde que entrei no consultório. Ele arregalou o olho e questionou porquê eu não ia tirar satisfação com o algoz dos jornalistas. Já puto da vida, retruquei demonstrando irritação que não fui porque estava, naquele momento, na frente de um infectologista tentando descobrir o que diabos era o que eu estava sentindo desde segunda-feira. Foi o bastante para que ele arregalasse os olhos pela segunda vez e sacasse o bloco de receitas:

- Rapaz, então vou lhe receitar logo esse remédio para que dê tempo de você falar com o hômi. Boa sorte!

A moleza e a dor no corpo me impediram de fazer o mesmo que o Collor fez semana passada, quando mandou o Pedro Simon enfiar alguma coisa num lugar que todo mundo entendeu. Me levantei, saí pela mesma porta que entrei e entendi porque os dois pacientes que haviam marcado consulta antes de mim, ainda não haviam dado o ar da graça.

Rezem por mim.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

CONSELHO

Estive hoje pela manhã em Ponta Negra acompanhando a pauta do meu colega Bruno Vasconcelos, repórter de esportes do DN. Fomos os dois no mesmo carro, ao lado da fotógrafa Joana Lima e do motorista Alexandre. Como meu destino era mais longe e Bruno tinha hora marcada, pegamos o rumo de Ponta Negra. Lá ainda esperamos alguns minutos até a chegado do Thoni, lateral-direito do América que, no último final de semana, fez um golaço aos 40 minutos do segundo tempo contra o Campinense, na Paraíba. Bruno já havia feito a matéria por telefone e, portanto, faltavam as imagens do sujeito. A pedido de Joana, Thoni posou tomando uma água de coco sentado numa das jangadas atracadas na areia e caminhando pelo calçadão da orla. Conversa vai, fotografia vem, entrei na conversa falando de futebol. Quando botei o Flamengo na roda, lembrando a infelicidade do babaca do Ronaldo Nazário, que duvidou essa semana do tamanho da maior torcida do mundo, notei que o atleta do América mudou o semblante. Quase imperceptível, mas achei estranho.

Eis, agora, o verdadeiro motivo desse pequeno texto. Esperei a turma silenciar e perguntei ao Thoni se ele tinha um time do coração, aquele clube que desde criança a gente aprende a amar e, ganhe ou perca, o amor não muda. Depois de mais uma golada na água de coco morna, o rapaz confessou, sem graça e com a cabeça baixa:

Eu ERA Vasco.

Ouviu-se ali, durante bons segundos, uma gargalhada incontida de minha parte e da parte do Bruno, outro rubro-negro. Constrangido, Thoni disse que o jogo entre América e Vasco seria disputado no dia do aniversário do pai dele, também vascaíno, agora no mês de agosto. Para não perder a piada e animar o cabisbaixo lateral americano, dei um um último conselho:

Seja profissional, Thoni. E aproveita para marcar mais dois.

Ele riu e, claro, eu também.

terça-feira, 7 de julho de 2009

DIRETO DA REDAÇÃO

Começo hoje, aqui neste espaço, a primeira série do Meio da Rua. Todas as terças-feiras, publicarei algumas pérolas testemunhadas por mim ou que tiveram esse jornalista que vos escreve como protagonista. Geralmente são histórias engraçadas que a gente costuma relembrar na conversa com os amigos, claro, em mesa de bar. Um detalhe importante: como não fui autorizado por ninguém a publicar mico dos outros, devo omitir os nomes dos verdadeiros autores de algumas acontecências das redações do Diário de Natal e da Tribuna do Norte, os dois jornais da cidade em que trabalhei. Hoje, de volta ao DN depois de três anos, sigo anotando as proezas que vejo. Tudo assim, Direto da Redação.

O DIA EM QUE A ENTREVISTA COM DOM HELDER CÂMARA CAIU NO BURACO

Conhecido pela atuação humanitária em favor dos pobres e, principalmente, dos perseguidos políticos na época da ditadura militar, o arcebispo de Olinda Dom Helder Câmara morreu em 1999. Quando iniciei no jornalismo, dia 5 de agosto de 2005, conhecia pouco da biografia do santo padre pernambucano, mas o suficiente para saber que ele não estava mais entre nós. O problema é que, numa redação de jornal, não existe verdade absoluta. Ainda mais quando se está começando. E principalmente quando é o seu primeiro dia como estagiário num jornal da chamada grande imprensa potiguar, como o Diário de Natal.
Logo, qual não foi minha surpresa quando o chefe de reportagem do DN, Marcos Ramos, hoje editor do caderno Interior, do Jornal de Hoje, iniciou o seguinte diálogo:

- Você é católico?, perguntou-me o chefe.
- Sou, mas não pratico.
- Ah, pelo menos você não é crente. Acho que você é o repórter ideal. - Para quê?, retruquei já imaginando que faria a matéria do ano no primeiro dia de trabalho.
- Amanhã você vai entrevistar Dom Helder Câmara.

Aquilo, para mim, caiu como uma bomba. Mas fui em frente sem entender.

- Como?, eu questionei num misto de certeza e espanto.
- Dom Helder Câmara, o arcebispo, não conhece?
- Conheço.

- Então depois procure a biografia dele na internet para você saber quem é. Temos que checar que hora ele chega.

A essa altura eu já duvidava de tudo o que eu tinha aprendido na faculdade de jornalismo e, principalmente, já dava o velho quase como ressuscitado.

Tive uma idéia. Respirei fundo e imaginei, óbvio, que se tratava de alguma pegadinha do chefe com o estagiário, daquelas que a gente conhece só das histórias contadas por jornalistas mais velhos. Estava na cara: o chefe de reportagem queria me sacanear. Enquanto eu estivesse lendo a biografia resumida de Dom Helder Câmara na internet ele estaria mijado de tanto rir do trote em cima do otário aqui.

(Aqui, uma pausa. Quando entrei no jornal, a redação do Diário era escura, os móveis antigos e os computadores, provavelmente, eram os primeiros da era pós-maquina de escrever).

Pois bem. Vendo Marcos Ramos de um lado para o outro da redação, resolvi abordá-lo novamente. Fingi que esqueci o nome do entrevistado e retomei diálogo:

- Marcos, qual é o nome do arcebispo que eu vou entrevistar, mesmo?
- Dom Helder Câmara., ele repetiu para o meu desespero.

Continuei suando frio:

- Você tem certeza que é Dom Helder Câmara?

A essa altura do campeonato eu já estava com medo de dizer que o velho tinha morrido e ouvir que eu não sabia de nada e, por isso, não serviria para trabalhar em redação. Até que, sabe-se lá como e por onde, entrou um pouco de luz na redação do DN e a polêmica acabou quando Marcos Ramos pegou a pauta da minha mão.

- Peraí. Helder Câmara não! Você vai entrevistar o Dom Eugênio Sales, arcebisto de Natal, que está vindo do Rio de Janeiro. Dom Helder Câmara já morreu, cara!

Ele disse tudo isso rindo como se eu não soubesse do acontecido. Me deu dois tapinhas nos ombros antes de dizer que meu expediente já havia terminado.

Respirei aliviado e fui para casa vasculhar a vida de Dom Eugênio Sales na internet. Voltei no dia seguinte afiado e empolgado com a entrevista. Minha alegria acabou quando recebi a pauta: a entrevista foi repassada para outro repórter. Para mim, sobrou uma grande notícia: continuar, por telefone, a matéria de uma colega que participou, no dia anterior, das comemorações pelo aniversário de 1 ano de um buraco aberto próximo a praça do Relógio, no Alecrim.

Para quem ia entrevistar um defunto, cair num buraco foi um grande começo.

UMA ESTRELA SEM ALARDE




Vendo essa arrumação toda em volta do funeral de Michael Jackson, me lembrei da segunda vez em que estive em Ceará-mirim. Fui a trabalho, mas a visita rendeu algumas boas histórias. Antes do início da passeata que fui cobrir no dia, por exemplo, passou uma Kombi enferrujada na avenida principal da cidade anunciando, de um alto-falante acoplado ao carro, a morte e o local do sepultamento do finado Grandão da Cosern. Não tenho a menor idéia de quem foi o tal sujeito nem tive tempo de colher informações a respeito. Chamou-me atenção, no entanto, o burburinho dos moradores da cidade. A impressão era de que todos ali conheciam, ao menos de nome, Manoel Leopoldino, o popular Grandão da Cosern. Vizinhas de janela cochichavam, dois frentistas do posto de gasolina da cidade se entreolhavam como se não acreditassem na notícia e até uma manifestante do protesto que estava para acontecer passou a falar sozinha como se encomendasse a alma do finado.

Apesar de não ter acompanhado o cortejo que se sucedeu na parte da tarde e mexeu com Ceará-mirim, tenho certeza que o caixão não era folheado a ouro, os ingressos do velório não foram distribuídos pela internet e depois vendidos por R$ 20 mil dólares, e muito menos recebeu qualquer celebridade num show de cores, música e brilho. Tenho para mim, que se Michael Jackson pudesse ter voltado atrás, preferiria ter vivido, assim, como o Grandão da Cosern: longe da mídia, mas mesmo assim conhecido por meio mundo de gente. Uma estrela sem alarde. Nem a pompa de um pop star.